Recordação: Uma Verdade Incompleta

Todos os anos, eu peço aos meus alunos do seminário que me digam como eles imaginam que as crianças de 8 e 9 anos de suas congregações resumiriam o ponto principal da Ceia do Senhor em uma frase-resumo. Invariavelmente, a grande, grande maioria responde "A Ceia é sobre recordar a morte de Jesus".

This article was first published in Reformed Worship magazine.

Tenho notado a mesma frase rastejando em cultos de adoração onde a Ceia é administrada sem o uso qualquer liturgia ou forma escrita. O serviço pode começar com um líder de música dizendo "Bem vindo ao serviço da Ceia do Senhor no qual lembramos da morte de Jesus" Em seguida, na mesa, o pastor pode ler as palavras de instituição da ceia e, em seguida, dizer "Nós estamos reunidos aqui para lembrar a morte de Jesus".

Essas frases bem intencionadas transmitem uma parte da verdade. Certamente nos reunimos à mesa para "fazer isso em memória" de Jesus, e para "proclamar sua morte" ( muito embora, observe como duas frases acabam de fundindo nessas abordagens de uma só frase ).

Mas a mesa da Ceia é muito mais do que isso. Além da lembrança, a Ceia do Senhor também é sobre comunhão com Jesus e uns com os outros, a renovação dos votos da aliança de Deus para conosco, ser alimentados por Jesus e experimentar uma antecipação do banquete celestial do Reino de Deus.

Além disso, a Ceia do Senhor não é uma ocasião para a atividade humana de lembrar. É também uma ocasião para o trabalho ativo de Deus em nutrir e fortalecer a nossa fé. Nossos resumos de uma frase perdem tudo isso de vista.

Para os cristãos reformados, enquanto essa frase comum é coerente com, pelo menos, parte do ensino de Zwingli sobre a mesa da Ceia, ela é inconsistente com o que Calvino ensinou e é claramente ensinado em documentos confessionais, como a Confissão Belga e o Catecismo de Heidelberg, que rejeitou o memorialismo restrito de Zwingli. Enquanto essa frase comum é bem intencionada, é claramente uma forma "sub-bíblica" ( e também "sub-reformada" ) de vir à mesa do Senhor.

Não é errada. Apenas muito incompleta. Esta incompletude seria como repetir regularmente que Jesus é um pastor, mas nunca dizer que Jesus é um rei, ou explicar como a Graça de Deus vem a nós através do perdão dos pecados, mas nunca explicar o dom da santificação e o trabalho contínuo do Espírito Santos em nossas vidas.

Implicações pastorais de uma teologia incomplete

Tudo isso tem profundas implicações pastorais. Sempre que perdemos de vista como Deus está trabalhando em nós e através da nossa participação no culto, lançamos as sementes para todos os tipos de problemas pastorais - incluindo o pensamento de que o sentido e significado da Ceia do Senhor, em última análise, depende da nossa própria piedade, da nossa própria capacidade de recordar com intensidade.

Ao participar da Ceia do Senhor, se apenas olharmos para trás e voltarmos no tempo, não vamos nos tornar experientes em "fixar nossa mente nas coisas do alto" ( Colossenses 3 ), "erguendo nossos corações para o Senhor", tampouco ter a nossa visão renovada sobre a festa do reino vindouro. 

Há muitas maneiras de transmitir essa riqueza em um culto de adoração onde a Ceia do Senhor é administrada, incluindo a utilização mais ampla de formas equilibradas ou canções congregacionais que exploram esses múltiplos significados.

Mas também sei que centenas de congregações abandonaram formas equilibradas em favor de uma abordagem muito, muito despojada para a ceia que coloca muito peso em explicações de uma só frase. 

Espero que, mais ou mais tarde, venha o dia no qual nos tornaremos totalmente insatisfeitos com isso. É um pouco como tentar celebrar um aniversário ou um aniversário de casamento da forma mais rápida que seja possível. Isso pode ser feito,  mas muitas coisas são perdidas.

Até então, é crucial para a nossa própria clareza de visão, melhorarmos a nossa frase resumo sobre o que a Ceia do Senhor significa. Precisamos de boas explicações de uma só frase para explicarmos a Ceia do Senhor às crianças e aos demais. Como líderes, precisamos dela para melhorar o nosso serviço.

Precisamos dela para aguçar a nossa própria imaginação sobre tudo o que a Ceia significa.

Uma frase que ensina e inspira

Na década de 170, Howard Hageman, um sábio historiador e teólogo, fazia parte de um grupo designado a editar e rever a liturgia oficial da Ceia do Senhor para a Igreja Reformada da América ( RCA - Reformed Church in America ). Eles estavam procurando maneiras ricas e robustas de fazer suas formas mais simples, mais evocativas e menos didáticas. Como parte do processo, ele cunhou a simples e memorável frase : "uma refeição de lembrança, comunhão e esperança". Quase todas as vezes que eu estive num serviço de culto conduzido por um pastor da RCA, eles começaram a celebração com essa frase, independentemente de confiar nas palavras exatas ou no improviso.

Que bela frase: "Refeição de lembrança, comunhão e esperança". É simples, "pegajosa", memorável - e começa a abrir as múltiplas camadas dos significados da Ceia em referência ao passado, presente e futuro. Além disso, convida à exploração - mesmo que brevemente - de cada uma dessas três camadas de significado. E é uma frase que certamente as crianças podem guardar consigo.

Essa frase não precisa ser a última palavra. Talvez você vai discernir uma maneira de tecer em uma única frase ainda mais camadas do significado da Ceia do Senhor, com ainda mais ênfase na atuação de Deus sobre o que fazemos lá.

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